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    Home » Cultura da produtividade a todo custo prejudica mulheres – 26/05/2026 – Equilíbrio
    Saúde

    Cultura da produtividade a todo custo prejudica mulheres – 26/05/2026 – Equilíbrio

    Caf Festa e EventosPor Caf Festa e Eventosmaio 27, 2026Nenhum comentário4 minutos de leitura0 Visualizações
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    A jornalista Izabella Camargo, 45, consultou cinco médicos antes de ter um apagão ao vivo ao apresentar a previsão do tempo em um telejornal na TV Globo, em 2018. Todos os especialistas trataram suas queixas, como dores de cabeça intensas e problemas no intestino, separadamente.

    Foi somente ao se consultar com um cardiologista, o sexto médico, que ela recebeu o diagnóstico de estresse crônico. A princípio, duvidou daquele parecer. Fazia anos que trabalhava sob pressão, por que o estresse a estaria prejudicando depois de tanto tempo? “Eu estava normalizando o anormal, algo que fazemos com muita frequência”, diz.

    Trabalhando para cumprir metas, ela conta que fazia o dobro para ter o mesmo reconhecimento dos homens. O apagão foi o estopim do diagnóstico da síndrome de burnout ou do esgotamento profissional, distúrbio emocional decorrente de sobrecarga extrema no trabalho que afeta principalmente as mulheres.

    Segundo o Ministério da Previdência Social, 546,2 mil brasileiros foram afastastados do trabalho no ano passado por problemas ligados à saúde mental, com as mulheres representando 63% dos casos.

    Dulce Brito, gerente médica de bem-estar e saúde mental do Einstein Hospital Israelita de São Paulo, diz acompanhar o aumento de casos de mulheres sobrecarregadas. “É algo que toda mulher sente, e estamos começando a falar sobre isso.”

    Uma queixa comum ouvida pela médica é a sensação de culpa. “A mulher que se percebe cansada muitas vezes se sente culpada, insuficiente por não dar conta.”

    A reclamação faz sentido, e dados do IBGE escancaram as várias jornadas enfrentadas por elas. O levantamento mais recente mostra que, em 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico. Já os homens gastavam 11,7 horas com esse tipo de trabalho, uma diferença de 9,6 horas. Ou seja, elas trabalham quase 40 horas mensais a mais.

    “O mundo corporativo criou o fenômeno da produtividade, de não podermos parar de trabalhar. Só que as mulheres são afetadas de forma diferente, porque, além da sobrecarga de trabalho, elas são, na maioria dos arranjos familiares heterossexuais, responsáveis pelos cuidados da casa, em uma divisão injusta“, diz o psiquiatra Pedro Pan, membro da ONG Ame sua Mente, que promove a saúde mental no ambiente escolar.

    Pan diz observar o crescimento de casos também entre mulheres mais jovens. “Elas entendem que precisam voar no trabalho, mas chegam em casa e os afazeres domésticos estão lá.”

    Com as redes sociais, essa sensação de sobrecarga piorou. “Elas ampliaram o sofrimento das mulheres. É como se elas dissessem que não basta mais você ser muito boa no trabalho e em casa. Agora você também precisa correr dez quilômetros às 6h. Porque correr cinco é pouco”, diz Pan.

    Mesma opinião tem Marta Bergamin, socióloga, psicanalista e coordenadora da pós-graduação em sociopsicologia da Fesp-SP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo). “As redes sociais entregam uma [ideia de] supermulher. Parece que você é a única a não dar conta de tudo.” E acrescenta: “Além de toda a carga do trabalho dentro e fora de casa, há o mercado de beleza, que diz que você tem que estar bonita.”

    Marta aponta uma questão ainda mais grave, que mexe com o emocional feminino. Segundo ela, com os crescentes casos de feminicídio e perfis misóginos no Instagram, no TikTok e em outras plataformas, as mulheres ficam mais vulneráveis —e sentem mais um peso com o qual precisam lidar. “Por muitos anos, fomos ensinadas a ficar em casa, cuidando do lar. Agora, estamos querendo sair, mas é perigoso.”

    Como sugere Izabella Camargo, antes de surgir um problema relacionado à sobrecarga é preciso parar e repensar a cultura. Em palestras que dá Brasil afora, ela fala do movimento “EPI’s (equipamentos de proteção individual) da Saúde Mental”, que criou para tratar de pontos como direito à desconexão e à flexibilidade do horário de trabalho.

    “Enquanto a pessoa acreditar no discurso do ‘trabalhe enquanto eles dormem’, resultado de uma cultura que descredibiliza a pausa, ela vai achar que problemas mentais são frescura.”

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