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    Home » Quando inclusão vira sinônimo de exclusão
    Cultura

    Quando inclusão vira sinônimo de exclusão

    Caf Festa e EventosPor Caf Festa e Eventosmarço 28, 2026Nenhum comentário5 minutos de leitura9 Visualizações
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    Dois mil e quatorze, eis o ano em que as engrenagens da produção cultural começaram a mudar. Nos estúdios, nas redações e nos departamentos de RH de grandes empresas criativas, a diversidade passou a se tornar um critério concreto de contratação, promoção e visibilidade.

    Surgiu o DEI, sigla em inglês para Diversidade, Equidade e Inclusão, que formalizou conceitos e práticas e ajudou a consolidar uma nova lógica institucional. Para os críticos, porém, não se tratava apenas de ampliar vozes ou corrigir desigualdades históricas, mas de transformar identidade em filtro prático de acesso ao mercado de trabalho, por vezes o único, o que faria da prática o contrário do que se prega em teoria.

    Mais de dez anos depois, não faltam exemplos de como a suposta equidade também pode operar como instrumento de injustiça, tornando a diversidade seletiva e criando novas formas de exclusão. E isso aparece com nitidez no texto de Jacob Savage, publicado na revista Compact.

    I – A Mudança em Números

    Roteirista em Los Angeles, Savage parte da própria trajetória para sustentar que o mercado deixou de oferecer espaço justamente quando a diversidade se tornou política institucional. Segundo seu relato, o problema não estava em falta de experiência ou em ausência de projetos, mas em uma nova lógica de seleção que passou a privilegiar perfis identitários específicos. Em salas de roteiro, diz ele, ser homem branco jovem deixou de ser uma condição neutra e passou a ser visto como obstáculo.

    O ponto mais forte de seu texto está justamente aí: Savage mostra que não se trata apenas de uma percepção isolada ou de ressentimento pessoal, mas de uma reordenação mensurável do sistema. Para isso, recorre a dados sobre composição de equipes, vagas de entrada e programas de formação. Na televisão, afirma que homens brancos ocupavam 48% das vagas iniciais de roteiristas em 2011; em 2024, esse percentual teria caído para 11,9%.

    A estatística indica uma mudança drástica dentro de um setor específico, porque a população branca não hispânica nos Estados Unidos, conforme estimativa de 2024, realizada pelo U.S. Census Bureau, é cerca de 56,3%. Ou seja: o recorte do mercado de roteiristas está muito abaixo da composição demográfica geral do país. Em 2011, o número estava próximo da realidade total do país. Como chamar, então, de inclusão o que parece ser mais uma exclusão?

    Segundo Savage, porém, o efeito dessa exclusão não foi homogêneo. Os mais velhos, já instalados em posições de comando, continuaram em grande medida protegidos. Foram os mais jovens, em especial os millennials que ainda buscavam espaço, que foram mais afetados, sequer sendo admitidos no meio. Não se tratou, portanto, de ampliar o acesso a essas instituições, mas de redefinir quem consegue entrar, subir e permanecer. A tese, assim, é menos sobre derrotas individuais ou grupais do que sobre uma mudança de regime sociocultural.

    II – E no Brasil?

    No Brasil, essa mesma lógica aparece em um registro mais pessoal e menos estatístico, mas não menos revelador. O roteirista e escritor Fabio Danesi Rossi, motivado pelo texto de Savage, relatou em seu Substack uma experiência semelhante no mercado brasileiro. Fabio não é um nome menor no meio: concorreu duas vezes ao Emmy, ganhou o APCA, foi um dos principais nomes da HBO Latin America por muitos anos e criou a primeira série a ganhar remake nos Estados Unidos.

    Ele descreve uma mudança de ambiente que se materializa na prática: decisões de contratação, composição de equipes, oportunidades que deixam de chegar e nomes que passam a ser considerados menos prioritários. A diferença é de escala e de linguagem, não de estrutura.

    Um dos relatos é particularmente eloquente. Segundo Fabio, a Netflix teria aceitado um projeto apresentado por sua equipe para criação de uma série, mas esbarrou numa exigência explícita: a sala de roteiro não poderia ser composta apenas por homens brancos. Na prática, isso significaria demitir alguém de sua equipe para incluir um desconhecido para que o projeto pudesse avançar.

    Em outro caso, o também escritor Alexandre Soares Silva, que era da equipe de Fabio Danesi Rossi, confirmou que, para conseguirem aprovação, às vezes já incluíam de saída temas identitários que imaginavam ser bem recebidos. Ainda assim, não obtinham o espaço esperado. Ambos são homens brancos.

    O quadro que se formou é o de um mercado em que, em nome da diversidade, o espaço para certos perfis encolheu de forma visível, especialmente para homens brancos. Nesse contexto, o perfil identitário passou a pesar mais do que a trajetória e até mais do que a própria qualidade do trabalho.

    III – O público comprou a ideia?

    A pergunta que fica é se esse novo regime cultural entregou o que prometia. Reparou supostas injustiças históricas? Ou apenas trocou um tipo de exclusão por outro? Melhorou a qualidade das obras? Ampliou de fato o alcance do que se produz?

    A reação do público sugere que a resposta não é a que os promotores da mudança esperavam. Os fracassos recentes da Disney, com a empresa recalibrando os roteiros de futuras obras para ser menos identitário já bastaria como resposta. Somadas às retaliações sofridas por marcas relevantes como Bud Light e Jaguar, cujas campanhas publicitárias apostaram forte em fórmulas identitárias, temos um quadro que parece mostrar que há não apenas um limite para a aceitação de pautas impostas de cima para baixo, mas também que a insistência provocativa não gera identificação, mas rejeição.

    Seria sinal que este novo regime não se sustentou e entrou em declínio? Perguntei a Fabio Danesi Rossi, que acha que até pode ter diminuído a força, mas ainda persiste. Já Alexandre Soares Silva considera que continua a mesma coisa e vai além, dizendo que mesmo que esse regime acabe no mundo, no Brasil será o último lugar em que isso acontecerá. Creio que tem razão. Até porque, como bem dizia Millôr Fernandes: “No Brasil, quando uma ideia fica velha, ela vem morar aqui”.

    Que aprendamos a lição o quanto antes: a inclusão real não se impõe de cima para baixo. Ela nasce quando se abre espaço, não quando se fecha porta alguma.

    FONTE

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