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    Home » Gírias da geração Z desafiam comunicação com as mães – 09/05/2026 – Equilíbrio
    Saúde

    Gírias da geração Z desafiam comunicação com as mães – 09/05/2026 – Equilíbrio

    Caf Festa e EventosPor Caf Festa e Eventosmaio 9, 2026Nenhum comentário7 minutos de leitura0 Visualizações
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    “Você não vai sair amanhã. Tem que estudar!”

    “Anão mano. Deixa eu ir, vai ser mó várzea.”

    “O que é várzea??????”

    “Esquece. Eu vou sim.”

    “Esquece o quê???”

    “A várzea. -1.000 aura.”

    “Você está perdendo o português, minha filha.”

    Exposta nas redes sociais por Ingrid Guimarães, esta troca de mensagens entre a atriz e sua filha Clara, de 16 anos, viralizou ao mostrar o choque de linguagens entre mães e seus filhos da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012).

    De um lado, abreviações, memes e códigos quase indecifráveis. De outro, a tentativa de entender um vocabulário que muda em um ritmo difícil de acompanhar. O dialeto dos jovens, marcado por referências do mundo digital, tem transformado a comunicação dentro de casa, muitas vezes desafiando o português tradicional e a paciência das mães.

    “Tem hora que eu falo: ‘Oi? Repete, não entendi’”, conta Andreia Borges, líder operacional na Escola Veredas, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Ela é mãe de três representantes da geração Z: Julia, João Vitor e Júlio César, de 25, 22 e 17 anos, respectivamente.

    É com o caçula que a conversa às vezes não flui. “Ou você se adapta e pede para ele te explicar ou a conversa não rola”, diz.

    Andreia lembra que, na relação com sua mãe, o cenário era bem diferente. “Antigamente era tudo muito formal. A gente não podia usar gíria. Era ‘senhora’, ‘por favor’. Tudo muito certo.”

    Por causa dessa criação, ela diz, acabou sendo mais rígida com os filhos mais velhos, corrigindo gírias e exigindo uma fala mais formal. Com Júlio, o mais novo, decidiu pegar mais leve. “Você vai aprendendo que, para ter proximidade, não dá para tratar tudo como errado”, diz.

    “Tipo, antes eu não usava muito. Mas aí eu fui conversando mais, ficando amigo de um monte de gente. Tem amigos que usam um tipo de gíria, outros que usam outros tipos de gíria”, explica Júlio.

    O choque entre gerações vem ganhando as redes. O criador de conteúdo Franklin Medrado transformou o tema em uma série de vídeos bem-humorados. Embora não tenha filhos, ele diz carregar uma bagagem de 12 anos como professor de biologia no IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro).

    O primeiro vídeo surgiu após observar a dificuldade de comunicação entre uma mãe e o filho durante uma viagem. A cena virou roteiro e foi publicada nas redes sociais —só no Instagram são 4,2 milhões de seguidores. Viralizou.

    “As mães começaram a me dizer ‘tenho um igualzinho em casa’ e engajavam muito. Entendi que ali tinha um universo inteiro para explorar”, afirma.

    Medrado diz que hoje sai na rua com um caderninho e observa os adolescentes. Uma vez por semana, pelo menos, publica um vídeo assumindo o papel de uma mãe que tenta de tudo para se comunicar com o filho. “Tô num restaurante, tem um adolescente. Como ele age? O que ele fala? Esse é o meu laboratório de pesquisa.”

    Segundo o psicólogo José Carlos Ferrigno, autor do livro “Da Infância à Velhice: O Fenômeno Cultural das Gerações“, toda juventude, em alguma medida, cria sua própria maneira de se comunicar para afirmar identidade e buscar independência.

    “Na adolescência, esse movimento se intensifica, já que os jovens estão em um momento de transição e passam a se identificar mais com os pares do que com a família”, afirma.

    De acordo com a professora e linguista Luciana Migliaccio, as gírias de hoje têm origem nas redes sociais, memes, jogos e anglicismos.

    “Antes, surgiam muito da televisão. Hoje, vêm principalmente de plataformas como o X e o TikTok. Esse fenômeno não é exclusivo da juventude. Todos os grupos sociais criam suas próprias linguagens. Basta ver o mercado financeiro, por exemplo, com o vocabulário da Faria Lima”, diz.

    Na casa de Andrea Figueiredo, vice-presidente do Instituto Fefig de educação, as diferenças de linguagem entre ela e as filhas Luisa Millan, 23, e Isadora Millan, 20, também impõem desafios no dia a dia.

    “É desesperador quando começa aquele ‘tipo, tipo, tipo’ a cada frase”, critica. “Eu mando um texto, elas mandam três palavras. É tudo abreviado, direto, sem introdução, com erros, figurinhas. Tem hora que eu falo que não vou responder enquanto não escreverem de um jeito que eu entenda, porque assim não dá.”

    Figueiredo lembra quando recebeu uma figurinha de um cachorro dentro de uma frigideira e não conseguiu entender a mensagem. “Eu falei: o que esse cachorro na panela quer dizer? Para mim, pode significar mil coisas. Elas morrem de rir, mas eu acho uma comunicação muito dúbia.”

    “Significa que ele tá numa situação de coitadinho. É, tipo, como eu tô me sentindo naquele momento”, explica Isadora.

    A mãe conta que já tentou incorporar os termos das filhas no próprio vocabulário, sem sucesso. “Elas falam que eu uso tudo fora de contexto. Aí dizem: ‘mãe, você tá flopada’. Eu demorei para entender que era uma crítica, não um elogio.”

    “Ela tenta lançar, mas não sabe como usar”, diz Luisa.

    Para Adriana Fontes, professora de artes no colégio Rio Branco, em São Paulo, tentar imitar os jovens pode ter efeito contrário. “Se o adulto força, vira ‘cringe’ na hora”, diz ela, usando a expressão geralmente empregada para demonstrar vergonha alheia.

    Diretora da Escola Veredas, Andrea Piloto aconselha aos pais que evitem julgamentos imediatos, demonstrem interesse genuíno pelo universo dos filhos e simplesmente perguntem o significado das expressões caso não saibam. “O importante é entender o que o jovem quer comunicar.”

    Mesma recomendação faz Ferrigno. “Se há boa vontade, respeito e amor, é possível se entender. Às vezes, basta pedir: ‘me explica o que isso quer dizer’”, diz o psicólogo. “O bom humor ajuda muito. Experimente ouvir com um sorriso no rosto. Isso facilita a aproximação e torna a conversa mais acolhedora.”

    Glossário de gírias da nova geração

    A reportagem provocou mães, filhos e especialistas a compartilharem expressões e traduzirem seus significados —mas nem sempre há consenso. Veja:

    • Cpa: abreviação da gíria “se pá”, que significa talvez, quem sabe. Exemplo: “Cpa eu vou no rolê”
    • Crush: alguém que desperta interesse para beijar, namorar
    • Babilônica: pessoa muito poderosa, confiante; superior a “diva”
    • Farmar: acumular algo (status, likes, pontos, atenção); tem origem nos games
    • Farmar aura: ganhar prestígio, carisma, “ficar bem na fita”
    • -1000 aura: perder pontos, passar vergonha
    • Flopar: dar errado, fracassar
    • Gag: chocado, admirado, impressionado. Exemplo: “Fiquei gag”
    • Hitar: fazer sucesso, bombar, viralizar; o oposto de “flopar”
    • Ir de arrasta / ir de base: morrer, ser eliminado
    • Juro: reposta ao concordar com algo; também pode significar ironia ou incredulidade. Exemplos: “Amiga, juro, olha a mensagem que ele me mandou”; “Nossa, juro”
    • Litorei: fui para a praia
    • MDS: abreviação de meu Deus
    • NN: não
    • Old: óbvio, “já sabia”
    • Pprt: abreviação de papo reto; conversa sincera, sem enrolação
    • POV: “point of view” (ponto de vista); muito usado em vídeos para mostrar a perspectiva de uma pessoa sobre determinada situação
    • Rz: abreviação da gíria resenha, que significa rolê, balada, encontro
    • Se loco / seloco: variação de “você é louco”, usada para demonstrar surpresa ou admiração. Exemplo: “Seloco, que golaço!”
    • Shade: alfinetada, indireta
    • Shippar: torcer para duas pessoas ficarem juntas
    • SS: pode significar “sim”
    • Tankar: suportar, aguentar. Exemplo: “Não tankei isso”
    • TBD: “to be defined” (a definir)
    • Tmj: “tamo junto”
    • Trend: tendência, algo que está em alta
    • Várzea: bagunçado, caótico, mas geralmente divertido

    FONTE

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